
A suspensão de fertilizantes pela Rússia e pela China, somada à alta de até 25% no diesel provocada pela guerra no Oriente Médio, atingiu em cheio os produtores de cana do interior de São Paulo, que já buscam alternativas com insumos orgânicos enquanto alertam que os custos elevados vão demorar meses para serem absorvidos mesmo após o fim das restrições.
Os produtores de cana do interior de São Paulo estão enfrentando um cenário que ataca de todos os lados ao mesmo tempo. A Rússia, responsável por cerca de 25% dos fertilizantes no mercado global, suspendeu as vendas nesta semana. A China já havia feito o mesmo antes. E a guerra no Oriente Médio empurrou o preço do diesel para cima com aumentos entre 20% e 25%. O resultado é uma explosão de custos que comprime a margem de quem planta cana e que, segundo representantes do setor, vai demorar meses para ser digerida.
A situação é especialmente grave porque diesel e fertilizantes são os dois insumos que mais pesam na conta dos produtores de cana. Juntos, representam fatia dominante dos custos operacionais de qualquer lavoura sucroenergética. Quando os dois sobem ao mesmo tempo e por motivos geopolíticos que fogem completamente do controle do produtor, o efeito é uma pressão financeira que pode comprometer safras inteiras. O alerta já foi dado pela Associação dos Plantadores de Cana (Aplacana) da região de Monte Aprazível, no interior paulista.
Por que a Rússia e a China cortaram fertilizantes ao mesmo tempo
A Rússia é um dos maiores exportadores mundiais de fertilizantes, fornecendo cerca de 25% do volume comercializado globalmente. A decisão de suspender as vendas esta semana não é isolada faz parte de um contexto de retaliações e realinhamentos provocados pelo conflito no Oriente Médio.
Quando um fornecedor desse porte fecha a torneira, o mercado global sente imediatamente: os preços sobem, a disponibilidade cai e os países importadores precisam disputar o que sobra.
A China já havia tomado medida semelhante anteriormente, restringindo a exportação de fertilizantes para garantir o abastecimento interno.
Com os dois maiores fornecedores globais limitando vendas, o Brasil que depende fortemente de importação de fertilizantes para manter sua agricultura competitiva ficou exposto. Os produtores de cana do interior paulista são dos primeiros a sentir o impacto porque o setor sucroenergético opera com margens que não toleram variações abruptas nos insumos.
O corte simultâneo de Rússia e China cria um efeito cascata. Os fertilizantes que o Brasil comprava desses países agora precisam ser buscados em fornecedores alternativos, que cobram mais caro por volumes menores.
O aumento já registrado é de cerca de 20% nos preços dos fertilizantes, segundo Júlio Cesar Moreira, gerente executivo da Aplacana de Monte Aprazível. E a tendência, enquanto as restrições durarem, é de que os preços continuem pressionados.
Como a guerra no Oriente Médio fez o diesel disparar
O diesel é o combustível que move a cadeia da cana de máquinas de plantio e colheita a caminhões de transporte. Segundo a Aplacana, o diesel representa entre 30% e 35% dos custos totais de produção dos produtores de cana. Quando o preço sobe 20% a 25%, como aconteceu nas últimas semanas, o impacto é devastador.
A guerra no Oriente Médio é o motor dessa alta. O conflito envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã afetou as rotas de transporte de petróleo, provocou fechamento do Estreito de Ormuz e empurrou o barril para perto de US$ 120. O encarecimento do petróleo se transfere diretamente para o diesel nas bombas brasileiras, e o efeito chega à porteira sem filtro.
Para os produtores de cana, o diesel mais caro não encarece apenas as operações de campo. O frete também sobe e a cana precisa ser transportada da lavoura até a usina, muitas vezes percorrendo dezenas de quilômetros. Cada real a mais no litro de diesel se multiplica ao longo de toda a cadeia, desde o preparo do solo até a entrega da cana na esteira da usina. O resultado é uma conta que fecha cada vez mais apertada.
Os números que mostram o tamanho do problema para os produtores de cana
O diagnóstico feito pela Aplacana de Monte Aprazível traduz em números o que os produtores de cana estão enfrentando. Diesel: aumento de 20% a 25%. Fertilizantes: aumento de cerca de 20%. Frete: em alta proporcional ao diesel. São três vetores de custos subindo ao mesmo tempo, sem que o preço da cana paga pelas usinas tenha acompanhado na mesma proporção.
Júlio Cesar Moreira, gerente executivo da associação, explica que a combinação é particularmente perigosa para os produtores de cana porque o setor opera com contratos de fornecimento que foram fechados antes da crise. Quem negociou a entrega da safra a preços de meses atrás agora precisa produzir com custos muito mais altos, sem poder repassar a diferença. A margem encolhe e, em alguns casos, pode desaparecer.
O cenário é agravado pelo fato de que a cana é uma cultura que exige investimento antecipado. O produtor gasta com fertilizantes, diesel e manutenção meses antes de colher e receber. Quando os custos explodem no meio do ciclo, não há como voltar atrás: o dinheiro já foi comprometido, e a única saída é tentar reduzir gastos onde for possível.
As alternativas que os produtores estão buscando para sobreviver
Diante da alta nos custos, produtores de cana do interior paulista começaram a adotar medidas de contenção. Uma das principais é a substituição parcial de fertilizantes químicos por insumos orgânicos, como vinhaça e torta de filtro subprodutos da própria indústria sucroenergética que podem ser usados como adubo. A troca não elimina a necessidade de fertilizantes minerais, mas reduz a quantidade importada.
Outra estratégia é limitar as operações ao essencial. Em vez de fazer todas as aplicações previstas no calendário agronômico, alguns produtores de cana estão priorizando apenas as etapas mais críticas para garantir a safra.
É uma decisão de gestão de risco: gastar menos agora pode significar produtividade menor, mas evita o colapso financeiro. A alternativa à economia é endividamento e, com juros altos, essa opção também tem custo elevado.
Moreira, da Aplacana, reforça que essas alternativas são paliativas. Enquanto Rússia e China mantiverem as restrições de fertilizantes e a guerra no Oriente Médio continuar pressionando o diesel, os produtores de cana vão operar sob estresse financeiro.
A solução definitiva depende de fatores geopolíticos que estão completamente fora do alcance de quem planta cana no interior de São Paulo.
Por que os efeitos vão demorar meses para serem absorvidos
Mesmo que a Rússia e a China voltem a exportar fertilizantes amanhã e o petróleo recue para patamares normais, os produtores de cana não sentirão alívio imediato.
A cadeia de abastecimento de insumos agrícolas tem inércia: os fertilizantes comprados a preço alto já estão nos estoques, o diesel caro já foi queimado nas máquinas, e os contratos de frete já foram fechados nas condições atuais.
Segundo a Aplacana, o ciclo completo de absorção dos custos elevados pode levar de três a seis meses após a normalização do mercado. Isso significa que, mesmo no melhor cenário, os produtores de cana vão conviver com margens comprimidas até o segundo semestre.
Para os menores, que não têm reserva de caixa para aguentar meses de rentabilidade baixa, a situação pode se tornar insustentável.
O alerta dos produtores de cana do interior paulista não é alarmismo é aritmética. Quando os dois insumos mais caros da produção sobem 20% ou mais ao mesmo tempo, e o preço do produto final não acompanha, a conta não fecha. E quem paga a diferença é o produtor, que absorve o prejuízo até que o mercado se reequilibre se é que o equilíbrio virá antes da próxima safra.
Fonte: CPG